Uma das primeiras perguntas da família quando uma pessoa idosa é internada é se alguém pode ficar com ela. A resposta tem base na lei, e conhecê-la ajuda na conversa com o hospital, que costuma ter regras próprias de visita e de permanência.
Este texto olha o assunto pelo ângulo do direito da pessoa idosa. Não discute limites de idade do acompanhante, que é outra pergunta, nem orienta o que o acompanhante faz dentro do hospital, que é assunto da equipe.
O que o Estatuto da Pessoa Idosa garante
O art. 16 do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) estabelece que à pessoa idosa internada ou em observação é assegurado o direito a acompanhante. O texto diz ainda que o órgão de saúde deve proporcionar as condições adequadas para a permanência do acompanhante em tempo integral, segundo o critério médico.
Quatro pontos desse texto merecem atenção:
- O direito é da pessoa idosa. Ela é a titular, e o acompanhante exerce esse direito por ela.
- Vale para a pessoa internada e também para a que está em observação, como acontece em prontos-socorros.
- O dever de proporcionar condições adequadas é do órgão de saúde, e não da família.
- A permanência em tempo integral é a regra do texto, sempre segundo o critério médico.
O parágrafo único trata de quem decide no caso concreto: cabe ao profissional de saúde responsável pelo tratamento conceder a autorização para o acompanhamento ou, no caso de impossibilidade, justificá-la por escrito. A lei, portanto, não deixa a negativa ao arbítrio da recepção. Ela exige uma razão registrada por quem conduz o tratamento.
O que a lei não diz
É útil saber o que o art. 16 não define, para não criar expectativa errada.
- Não define quem pode ser o acompanhante. Cada hospital organiza regras de identificação e de rodízio, que precisam ser compatíveis com o direito assegurado.
- Não detalha horários, número de acompanhantes por leito ou tipo de acomodação.
- Não trata de custo de alimentação ou de pernoite do acompanhante.
- Não obriga o hospital ou o plano a pagar um acompanhante profissional.
Por isso, a conversa prática com o hospital costuma envolver regras internas que a família precisa conhecer: documento de identificação, crachá, troca de acompanhante, local de descanso. Quando uma regra interna esvazia o direito assegurado pela lei, o ponto vira questão de direitos, e não de rotina.
Pessoa idosa com deficiência
Quando a pessoa idosa também tem deficiência, o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) reforça a proteção. O art. 22 assegura à pessoa com deficiência internada ou em observação o direito a acompanhante ou a atendente pessoal, com as condições adequadas para a permanência em tempo integral. Na impossibilidade, cabe ao profissional de saúde responsável pelo tratamento justificá-la por escrito, e a instituição deve adotar as providências cabíveis para suprir a ausência.
Quem decide pela pessoa idosa
O acompanhante, muitas vezes, é também quem participa das decisões. O art. 17 do Estatuto da Pessoa Idosa assegura à pessoa idosa no domínio de suas faculdades mentais o direito de optar pelo tratamento de saúde que lhe for reputado mais favorável. Quando ela não consegue, o parágrafo único indica o curador, quando houver, os familiares e, em situações de risco iminente, o médico. Quem acompanha deve saber que a presença não transfere automaticamente o poder de decisão: ele depende dessa ordem e, em certos casos, de documentos como a procuração, tema de Procuração para cuidar de idoso: o básico.
Quando a família contrata alguém para acompanhar
É comum a família contratar um cuidador para ficar no hospital, principalmente à noite. Isso é possível, mas traz perguntas de trabalho:
- o tempo no hospital conta como jornada, e o horário precisa ser registrado (Lei Complementar 150/2015, art. 12);
- o contrato deve dizer se a presença no hospital faz parte do combinado e como é paga;
- o hospital pode exigir identificação ou limitar a troca de acompanhantes.
O texto Contrato de cuidador de idosos: o que costuma constar lista os itens a combinar. A presença de um acompanhante contratado no hospital não substitui a equipe de saúde, que continua responsável pelos cuidados durante a internação.
Se o acompanhante for negado
A família pode seguir uma ordem prática, sem confronto:
- Perguntar à equipe quem é o profissional responsável pelo tratamento e pedir que o motivo da negativa seja registrado por escrito, como a lei prevê.
- Procurar a ouvidoria ou a direção do hospital, levando o registro.
- Se o hospital for do SUS, usar os canais de ouvidoria do SUS. Se for privado ou conveniado, a reclamação pode ser feita também ao plano de saúde e à ANS.
- Em caso de violação de direitos da pessoa idosa, acionar os canais de denúncia descritos em Como denunciar maus-tratos a idosos.
A informação geral sobre o conjunto de direitos está em Direitos da pessoa idosa na saúde.
Antes e depois da internação
A presença de um acompanhante costuma ser mais fácil quando a família já se organizou. Saber quem assume cada período, ter os documentos à mão e conhecer o contato do hospital evita improviso. Para o momento da saída, o texto Alta hospitalar de idoso: o que organizar primeiro reúne as perguntas que costumam ser levadas à equipe.
Outras fontes
Quem procura uma leitura complementar sobre o tema pode consultar o artigo do portal Medicina Geriátrica sobre acompanhante de idoso no hospital, e quem busca hospitais por cidade pode usar o hospitaisperto.com. Esses sites são independentes deste.
Este site é informativo. Cada caso é avaliado individualmente pela equipe que o acompanha. Procure o serviço de saúde da pessoa cuidada para decisões sobre o cuidado.
Perguntas frequentes
O que diz o art. 16 do Estatuto da Pessoa Idosa?
Diz que à pessoa idosa internada ou em observação é assegurado o direito a acompanhante, e que o órgão de saúde deve proporcionar as condições adequadas para a sua permanência em tempo integral, segundo o critério médico. O parágrafo único atribui ao profissional de saúde responsável pelo tratamento a autorização do acompanhamento ou, se for impossível, a justificativa por escrito.
Quem pode ser o acompanhante?
O art. 16 não define quem pode ser. Em geral, é uma pessoa da família ou alguém escolhido pela pessoa internada, a critério dela ou de quem decide por ela. Cada hospital tem regras próprias de identificação, de horário e de número de acompanhantes, que precisam respeitar o que a lei assegura.
O hospital pode negar o acompanhante?
A lei prevê que, quando não for possível, o profissional de saúde responsável pelo tratamento deve justificar por escrito. Negativa sem justificativa escrita é um ponto que a família pode levar à ouvidoria do hospital e aos órgãos de defesa dos direitos da pessoa idosa.
O plano de saúde ou o SUS pagam o acompanhante?
O art. 16 trata das condições de permanência, e não da contratação de acompanhante profissional. Se a família contrata alguém para acompanhar, o custo e o vínculo de trabalho precisam ser combinados com essa pessoa. Cobertura de plano depende do contrato e da norma da ANS.
Fontes
- Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003), arts. 3, 16, 17 e 19 Consultado ou publicado em 01/10/2003.
- Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), art. 22 Consultado ou publicado em 06/07/2015.
- Lei Complementar 150/2015 (trabalho doméstico), arts. 2 e 12 Consultado ou publicado em 01/06/2015.

